“Penso que não cegamos, penso que somos cegos. Cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem.” A mulher do médico, Ensaio Sobre a Cegueira.
Esse é o povo carioca.
É impressionante a decadência.
No século passado, estaríamos lutando todos juntos, com unhas e dentes, para ter a oportunidade única de ter um Homem no poder, um Homem de verdade.
Alguém que é sincero, na medida do possível para a política, firme com o que diz, pontual, sereno. Não tenta esconder sua visão por medo de prejudicar sua imagem, não manipula o povo, não tem necessidade de agredir o adversário. “Conseqüente e coerente, até o fim.” Como diria Oscar Niemeyer.
Tudo bem, Gabeira não é o homem que já foi, no seu tempo de exílio. É inclusive alguém com tendências direitistas. Mas é um homem íntegro, que não promete salvar o mundo, que respeita os adversários, que preza pelo bem. Sim, já fez merda, faz merda atualmente. Mas não é um merda.
Não um burguês com família bandida, com seus ternos passados, camisas engomadas, cabelo pro ladinho com gel, que pisca a cada 5 segundos e olha pros lados com insegurança, com aquele falso sorriso colgate, fazendo suas promessas com uma voz que falha de nervoso. Um energúmeno que não tem propostas, apenas agressões para com aquele com quem disputa seu cargo.
Me deixa pasmo como o povão, que tanto reclama de suas condições sociais, falta de saneamento básico, moradia habitável, educação de qualidade, saúde decente, entre muitos outros problemas, consegue cair mais uma vez na ladainha que cai de quatro em quatro anos. Será que não é possível ver que aquele homem que promete tudo, é o mesmo de sempre? Não é possível perceber que SEMPRE caem nas mesmas juras falsas? Não dá pra perceber que ele é um filho da puta cuja família é dona de construtoras, dessas que derrubam o que vêem no caminho, para mostrar serviço, e lucrar com obras super faturadas? É exatamente isso que ele fez, EXATAMENTE. Não é sabido que ele é uma cria do César Maia, que tanto critica hoje? Foi sub-prefeito da Barra e chegou a ser secretário do meio-ambiente no governo de tal homem, que hoje tanto Paes mete o pau. E ainda mais, por que dar preferência ao cara mais burguês de todos?
Ah, isso é simples. Porque desde pequeno, o cidadão de classe baixa é acostumado pela mídia a sonhar com a classe alta. O garoto da favela entra no tráfico pra conseguir seu tênis da nike, suas roupas de marca, e ter a doce ilusão que subiu de vida. Ele não pode descer o morro, já que pode ser morto por essa polícia bandida, e pra isso cria sua estrutura lá em cima mesmo, vivendo o sonho de ter se tornado algo que ele não é. Os fins NÃO justificam os meios. Mas o pobre garoto não tem culpa, é só vítima do Sistema.
E mais uma vez, caem no papo mole de alguém que só fez prejudicar eles mesmos.
Também me deixa perplexo, a podridão política. Eduardo Paes chamou Lula de “chefe de quadrilha”, criticou duramente o PT, e este o apóia? Jandira, Molon, e os candidatos que se dizem de esquerda, dão seu apoio ao direitista das plaquinhas?
Só há aliança entre os que possuem pensamento igual quando é para roubar? Isso me dá nojo.
E ainda tem os burgueses, que tem toda a informação do mundo, e dão seu voto a tal canalha. É incompreensível.
Mas isso não é o pior. Nem de longe.
O pior é ver esses mesmos cidadãos de situação privilegiada, viajando no fim de semana, e deixando de lado o direito de escolha do dito-cujo que irá governar a cidade. Foram mais de 900 mil abstenções. 20% DO ELEITORADO NÃO COMPARECEU! E foram todos eleitores de Gabeira, o povo da Zona Sul, já que são os privilegiados que têm condições para fazerem suas viagens.
A diferença foi de 51 mil votos. Se não fosse tal falta de consciência política, não só política, mas humanitária, a vitória de Gabeira era certa.
E sabem quem proporcionou o feriado, que fez esses burgueses viajarem? O governo estadual. O feriado para os funcionários públicos é terça-feira, César Maia transferiu o feriado dos trabalhadores municipais para sexta-feira, para tentar não prejudicar as eleições. Mas Sérgio Cabral resolveu adiantar o estadual para segunda-feira. Por que será?
E que venham mais quatro anos, como têm sido todos os ‘quatro anos’ das últimas décadas.
Aquele povo que lutava contra a ditadura, pelo visto, morreu. Morreu não, porque ainda existe gente ligada a luta política. Mas o grosso da massa prefere sentar no sofá e ver o jornal nacional, enquanto tomam sua coca-cola e arrotam seus problemas.
Talvez tenha alguém se perguntando porque alguém como eu, que ainda não tem idade para votar, está tão preocupado com os rumos políticos.
Não é porque sou mais novo, que tenho menos direito de demonstrar minha revolta, de emitir minha opinião como brasileiro, de ficar arrasado com a realidade em que vivemos. E mais ainda, me sinto culpado por ainda não ter a idade requerida para votar.
Mas nada disso importa, não adianta chorar sobre leite derramado. O que passou, passou, agora paguemos todos pelo nosso erro. Afinal, não adianta culpar terceiros, todos somos culpados.
Esse texto foi redigido totalmente no momento, no sentimento sentido na hora, então, é possível que haja erros de concordância ou de grafia.
Para finalizar, uma breve citação ao homem que tive a imensa oportunidade de viver no teatro:
“…Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que me venceram nessas batalhas”
Rafael Kritski, Carioca